A maioria de nós acha que conhece a história dos avós. Sabemos as linhas gerais: onde cresceram, em que trabalharam, como se conheceram. Mas por baixo dessas manchetes estão décadas de experiências, emoções e sabedoria sobre as quais a gente simplesmente nunca perguntou.
Muitas dessas histórias vieram de longe. Segundo o IBGE, o Brasil foi um país predominantemente rural até a década de 1960, e em 2010 já eram 84,4 por cento da população morando em áreas urbanas. Ou seja: é bem provável que um dos seus avós tenha nascido no interior, numa roça ou numa cidade pequena, e se mudado para a cidade grande. Muitas famílias descendem de quem atravessou o oceano, de Portugal, da Itália, do Japão (o Kasato Maru chegou a Santos em 18 de junho de 1908) e de tantos outros lugares; de africanos trazidos à força e escravizados; e de povos indígenas que já estavam aqui muito antes de qualquer cartório. Cada uma dessas origens é uma história que só eles podem contar.
As dez perguntas abaixo foram pensadas para abrir histórias mais profundas. São específicas o bastante para despertar lembranças vivas, mas abertas o bastante para que a conversa flua naturalmente. Faça uma de cada vez e prepare-se para as surpresas.
As perguntas
1. Qual é a sua primeira lembrança? Essa pergunta muitas vezes volta aos três ou quatro anos de idade e traz detalhes dos sentidos, um cheiro, um som, uma sensação, que dão o tom de toda a história deles.
2. Qual era a sua comida preferida quando criança, e quem fazia? A comida está profundamente ligada à memória e à emoção. A resposta quase sempre puxa histórias sobre a família, as tradições e o dinheiro que havia ou faltava em casa: o fogão a lenha, a horta no quintal, o pão feito em casa, a receita que veio de outro país.
3. Qual foi a decisão mais difícil que você já teve que tomar? Ela convida a pensar nos momentos decisivos, uma troca de trabalho, uma mudança de cidade, um relacionamento, e revela os valores e as prioridades que definiram o caminho da família. Para muitos avós brasileiros, a resposta é a decisão de deixar o lugar onde nasceram.
4. O que você queria ser quando crescesse, e o que aconteceu no lugar disso? A distância entre o sonho de criança e a realidade de adulto é muitas vezes onde moram as histórias mais interessantes.
5. Como era um domingo comum quando você tinha dez anos? Essa pergunta guarda a textura do dia a dia de um mundo que desapareceu: a missa ou o culto, o almoço de domingo com a família inteira, o rádio, o futebol de rua. As respostas costumam surpreender as gerações mais novas, que não conseguem imaginar a vida sem tela, sem carro ou sem supermercado.
Indo mais fundo
6. Quem foi a pessoa que mais influenciou a sua vida, e por quê? Aqui aparecem mentores, exemplos e às vezes figuras inesperadas, uma professora, um vizinho, um desconhecido, que ajudaram a fazer deles quem eles são.
7. O que você viveu que não queria que os seus netos passassem? A pergunta respeita as experiências difíceis e, ao mesmo tempo, traz a sabedoria à tona. Ela dá aos mais velhos permissão para falar das dificuldades sem pedir que revivam um trauma.
8. Que tradição da sua infância você gostaria que a gente ainda mantivesse? Assim aparecem costumes e rituais esquecidos que a família pode decidir trazer de volta, como a fogueira de São João no quintal, uma novena, a ceia de Natal do jeito antigo, e você mostra que valoriza a opinião deles sobre como as coisas deveriam ser.
9. O que você sabe hoje que gostaria de ter sabido na minha idade? Um convite direto para dividir o que a vida ensinou, e muitas vezes a pergunta que rende as respostas mais marcantes, aquelas que a família vai repetir por anos.
10. O que você mais quer que os seus bisnetos saibam sobre você? Essa pergunta dá ao seu avô ou à sua avó o controle sobre o próprio legado. Pede que ele ou ela escolha o que mais importa, o que já é, por si só, um profundo exercício de reflexão.
Como usar estas perguntas
Não dispare as dez perguntas numa conversa só. Escolha duas ou três para cada visita e deixe a conversa ir para onde quiser. Um café da tarde, o fim do almoço de domingo ou o caminho de carro até a casa de um parente são boas ocasiões. Grave a conversa se puder: até uma gravação de voz no celular guarda o ritmo e a emoção que as anotações não conseguem.
Se precisar de mais ideias, a nossa lista gratuita de vinte perguntas para fazer aos seus pais funciona igualmente bem com os avós e pode ser impressa para levar à visita. E se a conversa for por escrito, ou à distância, a nossa entrevista em família faz uma pergunta e depois mais duas, com calma, para puxar o fio da história. Grátis, no navegador e sem cadastro.
Depois de cada conversa, anote as histórias principais enquanto elas ainda estão frescas. Registre os detalhes que surpreenderam você, os nomes que apareceram e as perguntas que você quer fazer da próxima vez. Essas anotações viram a matéria-prima de um acervo da família que fica mais precioso a cada ano. Para o passo seguinte, veja como gravar a história de vida dos seus pais e avós.
Fontes
- Celso Cardoso Silva Simões, Breve histórico do processo demográfico, em IBGE, Brasil: uma visão geográfica e ambiental no início do século XXI (2016), com a passagem de país predominantemente rural para 84,4 por cento de população urbana: biblioteca.ibge.gov.br
- JICA Brasil, 18 de junho, Dia Nacional da Imigração Japonesa (chegada do Kasato Maru a Santos em 1908): jica.go.jp