Existe uma foto dos seus avós no dia do casamento. Em preto e branco, um pouco desbotada, com um canto rasgado. Você já olhou para ela cem vezes. E mesmo assim, quando a vê colorida, alguma coisa acontece. O vestido ganha um tom, o céu vira céu, os rostos ficam mais perto. Não é um milagre. É uma estimativa. Este artigo é sobre essa diferença.
O que a colorização faz de fato
Uma foto em preto e branco não contém cor. Contém luz e sombra. Um programa que acrescenta cor olha as formas da imagem e as compara com milhões de outras imagens que já viu. A grama costuma ser verde. O céu costuma ser azul. Um rosto costuma ter um tom de pele dentro de certa faixa. A partir disso, o programa adivinha, parte por parte, qual cor provavelmente estava ali.
Então é uma estimativa, não uma lembrança. O programa não sabe que o vestido da sua avó era azul-claro e não branco, porque na época tingir de azul saía mais barato. Não sabe que a bicicleta do seu pai era vermelha. Só sabe o que costuma ser. Se você tiver isso bem claro, pode aproveitar uma foto colorida sem ser enganado por ela.
Comece com uma boa digitalização
O resultado nunca é melhor do que a digitalização de onde você parte. Uma foto impressa fotografada com o celular, debaixo de uma lâmpada, com a sombra da sua mão por cima, gera uma foto colorida com essa sombra dentro. Então dedique tempo à digitalização.
- Resolução: 600 dpi é uma boa medida para uma foto impressa comum. Imagens pequenas, como fotos 3x4 ou provas de contato, podem ir mais alto. Em 300 dpi você perde detalhes dos rostos que vão fazer falta depois.
- Formato do arquivo: salve a digitalização em TIFF ou PNG. Esses formatos não descartam nada. O JPEG é prático para compartilhar, mas cada vez que você edita um JPEG e salva de novo, um pouco se perde.
- A cópia mestre: faça primeiro uma digitalização que você nunca mexe. Essa é a sua cópia mestre. Tudo o que você fizer depois (consertar, colorir, recortar) faz em uma cópia. Assim você sempre pode voltar.
- Vidro limpo, sem correção: limpe o vidro do scanner e desligue as melhorias automáticas. Você quer a foto como ela é, não como o scanner acha que ela deveria ser.
Se você não tem scanner, o celular serve, com limites. Deixe a foto plana perto de uma janela, longe da luz direta do sol, segure o celular reto acima dela e desligue o flash. Não é o mesmo que uma digitalização em 600 dpi, mas é melhor do que nada, e às vezes a alternativa é justamente nada.
Onde erra
Há três pontos em que a colorização costuma errar, e vale conhecê-los para reconhecê-los.
Tons de pele. Um programa escolhe uma pele média. Com uma família de pele clara isso muitas vezes funciona razoavelmente, mas as bochechas saem rosadas demais, ou todo mundo fica com o mesmo tom, quando seu tio sempre trabalhou ao ar livre e sua tia nunca. Com peles mais escuras erra com mais frequência: acinzentada demais, alaranjada demais ou desigual no rosto.
Uniformes e roupas de trabalho. Aqui a estimativa é mais perigosa, porque aqui uma cor significa algo. Um programa não sabe qual exército, qual época, qual patente. Muitas vezes transforma um uniforme em um marrom ou um verde que nunca existiram. O mesmo vale para as cores de um time, um uniforme escolar ou o avental de uma enfermeira.
Tecidos e estampas. Um vestido xadrez, um papel de parede florido, um suéter de tricô: o programa vê áreas claras e escuras e as preenche com o que é comum. O vermelho vira marrom, o amarelo vira branco, e uma estampa que de fato tinha duas cores acaba com uma só. Fotos antigas de interiores também sofrem com isso, porque uma sala de 1955 tinha cores diferentes de uma sala de hoje.
E tem mais uma coisa: uma foto colorida parece convincente. Essa é a dificuldade. Uma cor errada não parece um erro, parece um fato. Daqui a trinta anos, um neto pode acreditar que o vestido era mesmo azul.
Passe adiante o que sua família sabe
A boa notícia é que você tem algo que o programa não tem: você conhece essas pessoas. Ou conhece alguém que as conheceu. Esse conhecimento é a diferença entre um palpite e uma reconstrução bem fundamentada.
Antes de começar, anote o que você sabe. De que cor era a porta da frente? De que cor era o carro? O avô usava sempre um macacão azul? O vestido de noiva era marfim, ou na verdade rosa-claro, como sua mãe sempre dizia? Pergunte a quem ainda lembra, e pergunte agora. É o tipo de conhecimento que desaparece com uma geração.
Muitas ferramentas permitem indicar as cores: você clica no vestido e diz de que cor ele era. Faça isso onde tiver certeza e deixe o programa estimar o resto. Onde você não souber, uma cor neutra e discreta é mais honesta do que uma escolha ousada. E guarde a digitalização em preto e branco ao lado da versão colorida. A digitalização é a fonte. A cor é uma anotação ao lado.
Primeiro conserte, depois colora
A colorização normalmente não é o primeiro passo. Um canto rasgado, manchas, arranhões e desbotamento atrapalham a estimativa. Um arranhão atravessando um rosto é lido pelo programa como uma linha que pertence ali, e ganha uma cor. Então primeiro conserte, e colora depois.
Se quiser testar com uma única foto, sem instalar nada e sem criar conta, você pode fazer isso pela porta de restauração em thememorypalace.ai/restore. Você envia uma foto, vê o resultado e decide o que fazer com ele. É uma forma tranquila de descobrir o que ainda existe em uma foto antiga.
O que você ganha com isso
Uma foto colorida não substitui o original. É um convite. Crianças que passam reto por uma imagem em preto e branco param diante de uma colorida. Perguntam quem é. E aí você pode contar: é a sua bisavó, no dia do casamento dela, e aquele vestido era azul-claro, porque ela mesma sempre dizia isso.
É assim que funciona melhor: a digitalização como fonte, a cor como estimativa e a sua história como aquilo que a torna verdadeira.