Um palácio da memória é um lugar que você conhece bem e que usa para lembrar coisas em ordem. Você percorre mentalmente um caminho fixo por ele e deixa uma imagem marcante de cada coisa num ponto do caminho: um ovo gigante se quebrando no capacho da porta, uma vaca bebendo água na pia do banheiro. Para lembrar, você faz o caminho de novo. As imagens estão esperando onde você as deixou.
A técnica também se chama método de loci, do latim locus, lugar, e muita gente a conhece como palácio mental. Ela tem mais de dois mil anos, os campeões de memória continuam usando, e você pode montar o seu primeiro palácio ainda hoje à noite, em uns dez minutos. Este guia mostra de onde ela vem, o que as pesquisas dizem, como montar um palácio em cinco passos, um exemplo completo, exercícios e os erros que fazem tudo desmoronar.
De onde vem o palácio da memória
A história que deu origem à técnica é contada pelo orador romano Cícero no livro De oratore. O poeta grego Simônides de Ceos recitou um poema num banquete e foi chamado para fora do salão. Enquanto ele estava fora, o teto do salão desabou. Os corpos não podiam ser reconhecidos, mas Simônides conseguiu dizer o nome de cada convidado, porque lembrava onde cada um estava sentado. Cícero tira a lição: a ordem é a chave da memória, e o jeito mais seguro de fixar as coisas em ordem é ligá-las a lugares.
O manual mais antigo que sobreviveu é a Rhetorica ad Herennium, escrita em latim por volta de 80 a.C. por um autor desconhecido. Ela já traz as regras que a maioria dos professores ainda ensina: use lugares reais que você consegue imaginar, bem diferentes entre si, nem escuros demais nem claros demais, a uma distância razoável um do outro; e faça imagens marcantes, incomuns, engraçadas ou feias, porque as coisas comuns escorregam da memória e as extraordinárias ficam.
O professor romano Quintiliano descreve como um orador percorre mentalmente uma casa, da entrada pelos cômodos, e encontra as partes do discurso onde as tinha colocado. Durante séculos, a técnica fez parte de toda formação em retórica. Os oradores a usavam para fazer discursos longos sem anotações.
Funciona? O que as pesquisas mostram
O palácio da memória não é lenda. Vale a pena conhecer dois estudos.
- Campeões de memória não nascem diferentes. Em 2003, uma equipe liderada por Eleanor Maguire, da University College London, examinou o cérebro de dez pessoas com memória excepcional, várias delas competidoras do Campeonato Mundial de Memória. Elas não tinham inteligência maior nem uma estrutura cerebral diferente das pessoas comuns. O que as distinguia era o jeito de aprender: a maioria usava o método de loci e, enquanto memorizava, ativava regiões do cérebro conhecidas por sua importância para a memória espacial e a orientação.
- Pessoas comuns conseguem aprender. Em 2017, Martin Dresler e colegas publicaram um estudo na revista Neuron. Pessoas que nunca tinham usado técnicas de memorização treinaram o método de loci por 40 dias, 30 minutos por dia. Antes do treino, lembravam em média 26 palavras de uma lista de 72. Depois do treino, 62. Quatro meses mais tarde, sem praticar nesse meio-tempo, ainda lembravam mais de 22 palavras a mais do que no início.
O motivo não tem mistério. As pessoas são muito boas em lembrar lugares e caminhos, e em lembrar imagens estranhas. São ruins em lembrar listas soltas. O palácio da memória transforma uma lista num passeio por imagens estranhas.
Como montar um palácio da memória em 5 passos
- Escolha um lugar que você conhece de cor. A sua casa ou o seu apartamento é o melhor primeiro palácio: você imagina cada cômodo sem esforço. O caminho para o trabalho, a sua escola ou a casa da sua avó também servem.
- Fixe um percurso. Percorra sempre na mesma direção: porta de entrada, hall, cozinha, sala, quarto. É o percurso fixo que guarda a ordem.
- Escolha pontos ao longo do caminho. Comece com 10: o capacho, o cabideiro, o espelho do hall, a mesa da cozinha, o fogão, a pia, o sofá, a televisão, a estante, a janela da sala. Cada ponto deve ser diferente dos outros. Duas cadeiras iguais lado a lado vão misturar as imagens.
- Transforme cada item numa imagem exagerada e coloque-a num ponto. Faça grande, em movimento, estranha, engraçada ou um pouco nojenta. Use som ou cheiro. Faça a imagem agir sobre o ponto: não "leite perto do cabideiro", mas leite jorrando de todas as mangas dos casacos e se espalhando pelo chão.
- Percorra e revise. Faça o caminho uma vez logo em seguida, recolhendo cada imagem. Faça de novo à noite, na manhã seguinte e depois de uma semana. Cada revisão deixa tudo mais firme; sem revisão, as imagens se apagam em poucos dias.
Um exemplo completo: a lista do mercado
Digamos que você precisa comprar leite, ovos, pão francês, banana, café, tomate, queijo e detergente. Com o percurso acima:
- Capacho: um ovo gigante racha quando você pisa nele, e a gema escorre pelas suas meias.
- Cabideiro: leite jorrando de todas as mangas.
- Espelho do hall: o seu reflexo é um pão francês, acenando de volta.
- Mesa da cozinha: um cacho de bananas descasca sozinho e as cascas escorregam uma a uma até o chão.
- Fogão: um coador de pano do tamanho de um balde, pingando café tão forte que o cheiro faz os olhos lacrimejarem.
- Pia: tomates boiando e estourando, respingando na janela.
- Sofá: feito inteirinho de queijo, com buracos em que você afunda.
- Televisão: espuma de detergente borbulhando para fora da tela.
No mercado, refaça o caminho: capacho, ovo; cabideiro, leite. Repare que, para fazer compras, a ordem da lista não importa, mas para um discurso importa, e o percurso guarda essa ordem de graça.
O nosso gerador gratuito de palácio da memória faz os passos 2 a 4 por você: escreva até 20 coisas e ele monta um percurso de 20 lugares por um casarão, do portão de ferro até o mirante, com uma imagem para cada um e um teste para você se conferir. Funciona no seu navegador e não guarda nada.
Três exercícios para pegar o jeito
- Dez palavras ao acaso. Peça a alguém dez substantivos quaisquer, ou abra um livro em dez páginas ao acaso e pegue o primeiro substantivo de cada uma. Coloque as palavras no palácio da sua casa em dois minutos e diga todas em ordem. Depois de trás para frente. De trás para frente é fácil num palácio e quase impossível só repetindo, e é um bom jeito de sentir a diferença.
- Uma fala sem anotações. Pegue uma apresentação ou um brinde que você precisa fazer e reduza a 5 a 8 pontos principais. Coloque uma imagem por ponto ao longo do percurso. Ensaie a fala duas vezes fazendo o caminho; você vai perceber que para de olhar as anotações.
- Vocabulário. Para uma palavra de outra língua, crie uma imagem a partir do som e ligue-a ao significado. A palavra inglesa shelf (prateleira) soa como "chefe": o seu chefe sentado numa prateleira da cozinha, de pernas balançando. Coloque dez imagens assim num palácio reservado para essa língua.
Os erros que fazem tudo desmoronar
- Pontos parecidos. Dois quartos com a mesma cama, uma fileira de armários de cozinha iguais. As imagens escorregam umas para dentro das outras. Escolha pontos claramente diferentes.
- Imagens educadas demais. "Uma caixa de leite no cabideiro" se esquece. Exagere no tamanho, na quantidade, no movimento e nos sentidos. O manual antigo diz o mesmo: o que é comum se esquece.
- Coisa demais num ponto só. Um item por ponto, no começo. Mais tarde dá para colocar dois ou três numa cena, mas comece simples.
- Mudar o percurso. Se você faz o caminho numa ordem diferente a cada vez, perde a ordem da lista.
- Não revisar. Um palácio percorrido uma vez some em poucos dias. Na mesma noite, no dia seguinte e uma semana depois é o bastante para a maioria das listas.
- Usar para entender. Um palácio da memória guarda fatos em ordem. Ele não explica nada. Primeiro entenda, depois use o palácio para guardar as partes.
Para que serve um palácio da memória
Para tudo que é uma lista ou tem uma ordem: um discurso, uma apresentação, as etapas de uma receita ou de um procedimento, vocabulário, os nomes das pessoas numa reunião, datas históricas, o roteiro de uma redação, os pontos principais de um capítulo para a prova. Os atletas da memória usam a técnica para baralhos inteiros e números longos, transformando números em imagens com um código fixo.
Se você quer ir além, veja dez exemplos de palácio da memória prontos para testar, o guia palácio da memória para estudar e a nossa página sobre o palácio da memória.
The Memory Palace, o app, é outra coisa
The Memory Palace, o app, não é um app para treinar a memória: você não memoriza nada com ele. É o seu próprio palácio da memória em 3D para as suas lembranças: suas fotos, gravações e histórias ganham cada uma uma sala que você pode percorrer. Privado por padrão; você convida família e amigos quando quiser. O gerador gratuito de palácio da memória é uma ferramenta à parte, para a técnica clássica. O app é feito por uma pequena equipe em Lovaina, na Bélgica, e está em inglês, holandês, alemão, francês e espanhol, ainda não em português.
Fontes
- Cícero, De oratore II, 351-354 (a história de Simônides), texto em latim no The Latin Library: thelatinlibrary.com/cicero/oratore2.shtml
- Rhetorica ad Herennium, livro III, 16 a 24 (regras para lugares e imagens), trechos na Universidade do Texas em Austin: laits.utexas.edu/memoria/Ad_Herennium_Passages.html
- Quintiliano, Institutio oratoria XI, 2, texto em latim no The Latin Library: thelatinlibrary.com/quintilian/quintilian.institutio11.shtml
- Maguire, Valentine, Wilding e Kapur, Routes to remembering: the brains behind superior memory, Nature Neuroscience 6 (2003), PubMed: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12483214
- Dresler e outros, Mnemonic training reshapes brain networks to support superior memory, Neuron 93 (2017): cell.com/neuron/fulltext/S0896-6273(17)30087-9
- Resumo do estudo de Dresler (números de antes e depois do treino), ScienceDaily, 8 de março de 2017: sciencedaily.com/releases/2017/03/170308131236.htm
- Palácio da memória (também chamado método de loci), Wikipédia em português: pt.wikipedia.org/wiki/Palácio_da_memória