Um palácio da memória ajuda na parte mais difícil de um idioma novo: as palavras. Você transforma cada palavra em uma imagem com o método da palavra-chave, uma palavra do seu idioma com som parecido, e coloca essa imagem em um ponto de um caminho que conhece bem. Um palácio por idioma, um ponto por palavra. Este guia explica o método, o que a pesquisa encontrou, exemplos em espanhol e francês, um truque para o gênero gramatical e um plano de revisão.
Nunca usou um palácio da memória? Comece por palácio da memória: como construir um, passo a passo.
O método da palavra-chave em duas etapas
Em 1975, Richard Atkinson e Michael Raugh, da Universidade Stanford, descreveram uma forma de aprender palavras estrangeiras com duas ligações:
- A ligação sonora. Encontre uma palavra do seu idioma que soe como uma parte da palavra estrangeira. Essa é a palavra-chave. Ela não precisa soar como a palavra inteira.
- A ligação visual. Imagine a palavra-chave fazendo algo com o significado.
O exemplo deles, pensado para quem fala inglês: a palavra russa zvonok significa sino e soa um pouco como “zvahn-oak”. A palavra-chave é oak, carvalho. Imagine um carvalho com sininhos de latão no lugar das bolotas. Quando você ouve zvonok, o carvalho volta, e o carvalho traz os sinos.
Pelos critérios deles, uma boa palavra-chave soa o mais parecido possível com uma parte da palavra estrangeira, forma uma imagem fácil de visualizar e é diferente das outras palavras-chave da sua lista.
O que o estudo encontrou
Cinquenta e dois alunos de Stanford aprenderam 120 palavras russas em três dias, 40 por dia. Um grupo recebia uma palavra-chave para cada palavra; o outro aprendia as palavras como quisesse. Em um teste com as 120 palavras, no dia seguinte à última sessão, o grupo da palavra-chave acertou 72 por cento e o outro grupo, 46 por cento. Os autores escolheram o russo de propósito: um idioma que os alunos não tinham estudado, com poucas palavras parecidas com o inglês.
Por que colocar as palavras-chave em um palácio
A palavra-chave liga um som a um significado. O palácio acrescenta três coisas:
- Um lugar para cada palavra. A imagem não fica solta em algum lugar: está no portão, no saguão, na escada.
- Idiomas separados. Um palácio para o espanhol, outro para o francês. As palavras de um idioma não se misturam com as do outro.
- Um caminho para revisar. Percorrer o caminho já é um teste: em cada ponto, lembre a palavra antes de conferir.
Dentro de um palácio você pode dar a cada tema o seu trecho: palavras de comida na cozinha, de viagem no caminho até a estação, de roupas no quarto.
Exemplos práticos: espanhol e francês
Cada exemplo abaixo abre no nosso gerador com as palavras já nos seus pontos. As palavras-chave foram pensadas para quem fala inglês, por isso continuam em inglês no gerador. Para o português o princípio é o mesmo: procure uma palavra em português que soe como uma parte da palavra estrangeira e monte a imagem com ela.
1. Palavras em espanhol com palavras-chave
Um primeiro palácio para o espanhol. Cada ponto guarda uma palavra: o espanhol, o significado e a palavra-chave em inglês com som parecido.
- Portão de entrada: pato = pato (palavra-chave: pot, panela)
- Alameda de ciprestes: carta = carta (palavra-chave: cart, carrinho)
- Fonte do pátio: mesa = mesa (palavra-chave: mess, bagunça)
- Porta da frente: perro = cachorro (palavra-chave: pear, pera)
- Saguão de entrada: caballo = cavalo (palavra-chave: cab, táxi)
- Escadaria: pan = pão (palavra-chave: pan, frigideira)
No portão de entrada, um pato está preso de cabeça para baixo em uma panela. Na alameda de ciprestes, um carrinho transbordando de cartas rola entre as árvores. Na fonte, uma mesa coberta por uma bagunça terrível. Diga a palavra em espanhol em voz alta cada vez que imaginar a cena. (Várias dessas palavras já são iguais em português; aí você nem precisa de imagem.)
2. Palavras em francês com palavras-chave
Um palácio separado para o francês, para que os dois idiomas nunca dividam um ponto. Mesma ideia: palavra, significado, palavra-chave.
- Portão de entrada: le livre = o livro (palavra-chave: liver, fígado)
- Alameda de ciprestes: la pomme = a maçã (palavra-chave: pom-pom, pompom)
- Fonte do pátio: le chapeau = o chapéu (palavra-chave: shampoo, xampu)
- Porta da frente: le poisson = o peixe (palavra-chave: poison, veneno)
- Saguão de entrada: la clé = a chave (palavra-chave: clay, argila)
No portão de entrada, um livro que sangra quando você o abre, porque há um fígado prensado entre as páginas. Na alameda de ciprestes, maçãs com pompons pendem de todas as árvores. Se quiser o gênero também, acrescente uma marca fixa: toda palavra com le pega fogo, toda palavra com la fica congelada no gelo.
Gênero gramatical: coloque-o na imagem
Idiomas como o espanhol, o francês e o alemão dão um gênero a cada substantivo, e muitas vezes é justamente o artigo que o aluno esquece. Coloque o gênero na imagem com uma marca fixa que você usa para todas as palavras: masculinas pegando fogo, femininas congeladas no gelo e, no alemão, uma terceira marca para o neutro, por exemplo feitas de borracha.
Há algumas evidências a favor. Em um estudo de 2015 publicado na Language Teaching Research, com 283 participantes aprendendo substantivos alemães, foram comparados cores, vozes, imagens e uma combinação como apoio para lembrar o gênero. As imagens que mostravam o significado e o gênero de um substantivo deram os melhores resultados.
Um plano de revisão
- Lembre antes de conferir. Percorra o caminho, diga a palavra estrangeira em cada ponto e só depois olhe. Em um estudo de 2006, os alunos que se testavam lembravam mais uma semana depois do que os que apenas reliam.
- Espace as revisões. No mesmo dia, no dia seguinte, alguns dias depois e uma semana depois. Passeios curtos bastam.
- Vá nos dois sentidos. Uma vez da palavra estrangeira para o significado, outra do significado para a palavra estrangeira.
- Use a palavra. Diga-a em uma frase ou escreva-a em uma mensagem. Quando uma palavra volta sozinha, você não precisa mais da imagem.
Onde não ajuda
A palavra-chave dá o significado, não a pronúncia, a ortografia ou a gramática. Ouça a palavra de verdade com um falante nativo ou em um dicionário com áudio e pratique a gramática à parte. E não crie imagens para palavras que você já reconhece: guarde o esforço para as que insistem em escapar.
Nosso gerador gratuito de palácios da memória coloca até 20 palavras em 20 pontos de uma villa, com um teste no final e um link para compartilhar com um colega de estudo. Ele funciona no seu navegador e nada fica guardado do nosso lado. Para mais listas prontas, veja dez exemplos de palácio da memória e, para provas, palácio da memória para estudar.
Um idioma novo muitas vezes vem com uma viagem, uma temporada no exterior ou amigos em outro país. Para esses momentos criamos The Memory Palace. Não é um app para treinar a memória: você não memoriza nada com ele. É seu próprio palácio em 3D para suas próprias lembranças: fotos, gravações e histórias ganham cada uma uma sala para percorrer. Privado por padrão; você convida família e amigos quando quiser. O gerador gratuito é uma ferramenta separada para a técnica clássica. O app é feito por uma pequena equipe em Lovaina, na Bélgica. O app está em inglês, holandês, alemão, francês e espanhol, ainda não em português. Conheça o app.
Fontes
- Atkinson e Raugh, An application of the mnemonic keyword method to the acquisition of a Russian vocabulary, Journal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory 104 (1975) 126-133, reimpressão na UC San Diego: rca.ucsd.edu/reprints/An%20Application%20of%20the%20Mnemonic%20Keyword%20Method%20to%20the%20Acquisition%20of%20a%20Russian%20Vocabulary_Journal%20of%20Experimental%20Psychology%20Human%20Learning%20and%20memory_1975.pdf
- Atkinson, Mnemotechnics in second-language learning, American Psychologist 30 (1975) 821-828, registro ERIC: eric.ed.gov/?id=EJ123584
- Dias de Oliveira Santos, Can colors, voices, and images help learners acquire the grammatical gender of German nouns?, Language Teaching Research 19 (2015) 473-498, registro ERIC: eric.ed.gov/?id=EJ1065542
- Roediger e Karpicke, Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention, Psychological Science 17 (2006): profiles.wustl.edu/en/publications/test-enhanced-learning-taking-memory-tests-improves-long-term-ret